Elói Silveira
Em uma década de 40 marcada pela Segunda Guerra
Mundial e pelas dificuldades econômicas, buscar
sucesso na vida como esportista poderia ser considerado
loucura. Ainda mais para um jovem de baixa estatura, de
corpo franzino e natural de um interior de São
Paulo ainda distante dos principais pólos. Mas
mesmo diante de problemas, Tetsuo Okamoto avançou
na carreira por ter o que outros adolescentes da sua época
não tiveram: um sonho.
Foi por causa do desejo de viajar e conhecer
novos lugares que Okamoto, então com 15 anos, aceitou
a idéia de se dedicar mais aos treinos na piscina
após a chegada de um novo treinador no Yara Clube
de Marília, que revolucionaria o método
de preparação de um jovem apresentado à
natação aos sete anos com a esperança
de curar problemas de asma.
Ainda assim, o tal “método
revolucionário” era, no mínimo, curioso.
A mudança significaria nadar de mil a dois mil
metros por dia, o que nos dias de hoje chega a ser menos
que o exigido em aulas básicas. A grande reviravolta
viria mesmo dois anos depois, em 1949, quando teve a oportunidade
de conhecer nadadores japoneses, no Brasil para série
de exibições após vitória
sobre os melhores atletas da época. Com o contato,
Okamoto percebeu que precisaria de “algo mais”
para chegar naquele nível. Foi então que
passou a nadar dez mil metros por dia.
O “Tachinha”, apelido ganho
na época, devido ao corpo magro e à “cabeça
grande”, começou então a despontar.
O sonho de conhecer o Brasil se concretizava aos poucos
e ganhava proporções maiores a partir de
1951, ano em que foi convocado para disputar os Jogos
Pan-americanos de Buenos Aires. Foi nesta competição
que Okamoto apareceu de vez, com duas medalhas de ouro
- nos 400m e nos 1.500m livres - e uma de prata - no revezamento
4x200m -, mesmo em condições desfavoráveis,
levadas ao extremo pela rivalidade entre Brasil e Argentina.
A campanha no ano seguinte à dolorosa
derrota da seleção de futebol na Copa do
Mundo fez com que Okamoto fosse alçado à
condição de ídolo, com direito a
apresentações para grandes públicos
em cidades do interior de São Paulo. Em 1952, garantiu
vaga nos Jogos Olímpicos de Helsinque, mesmo longe
da melhor forma. Isto aconteceu porque Marília
enfrentava, pouco antes das Olimpíadas, um de seus
mais rigorosos invernos e impossibilitava treinos de maior
qualidade.
Okamoto chegou literalmente frio numa
quente Helsinque, mas recebeu a boa notícia de
que a prova dos 1.500m fecharia a programação
da natação. Teve, então, duas semanas
para compensar o tempo perdido. No meio da preparação,
abandonou a idéia de disputar duas provas e se
concentrou na que gostava mais: a dos 1.500m, mesmo com
forte concorrência dos mesmos japoneses que haviam
passado pelo Brasil anos antes e dos norte-americanos.
Havia ainda outro fato que dificultava
a situação. Ele chegava em segundo plano
entre os brasileiros, já que os holofotes estavam
no carioca Sílvio Kelly dos Santos, que acabara
de garantir recorde sul-americano na mesma prova. Mas
Sílvio Kelly decepcionou nas eliminatórias,
não se classificou para a final e deixou o caminho
livre. À frente, porém, apareciam ainda
o norte-americano Ford Konno e os japoneses Shiro Hashizume
e Yasuo Kitamura, com melhores tempos.
Na prova, Okamoto surpreendeu e baixou
seu tempo das eliminatórias em mais de 15 segundos.
A excelente marca de 18min51s30 só não foi
suficiente para superar Konno, medalha de ouro com 18min30s,
e Hashizume, prata com 18min41s40. Ainda assim, fez com
que chegasse em terceiro, completasse o pódio “nipônico”
(Konno e Okamoto eram descendentes diretos de japoneses)
e se tornasse o primeiro nadador brasileiro a conquistar
medalha olímpica na história.
Após o triunfo, Okamoto voltou
ao Brasil e, em meio a mais festas, enfrentou dura decisão.
Aos 20 anos e sem dinheiro de patrocínios (o esporte
era estritamente amador), recebeu proposta para fazer
faculdade nos Estados Unidos e decidiu ir. Ele cursou
geologia na Texas Agricultural Mechanical College, ainda
se manteve como nadador durante o período, em disputas
universitárias, mas aos poucos se distanciou do
esporte. Na volta ao Brasil, trabalhou em empresas até
1977, quando resolveu abrir a Hidrotécnica Okamoto,
de perfuração de poços artesianos.
De sua campanha em Helsinque, não
guarda nem a medalha que conquistou. Ela está em
salão especial no Yara Clube de Marília,
graças à doação de Okamoto.
Na madrugada de 2 de outubro de 2007,
o Brasil se despediu de seu primeiro medalhista olímpico
da natação. Vítima de insuficiência
respiratória e cardíaca, Tetsuo faleceu
em Marília.
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